quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

conto de chuva


Água no rosto, pasta de dente, bochecho. Para o desjejum uma xícara de café preto, torrada com manteiga e os editorias.
Dia comum. Contra a ansiedade uma volta de bicicleta pela cidade. Já se fazia quase três meses que ele não tinha sexo. Para um rapaz de 22 anos, e para todos os outros homens, três meses é muito tempo. É preciso gastar energia de alguma outra forma. Ele escolheu pedalar.
Na volta para casa, o olhar no cotidiano. O homem que checa o relógio tem barba grisalha e o cabelo começa a lhe faltar. Uma moça bonita de olhos escuros afiados e batom vermelho caminha na direção do homem.
- Vai chover. E eu não trouxe o guarda-chuva.
O céu preto desaba em gotas pesadas. Gabriel também estava sem guarda- chuva. Dá meia volta até a padaria. Acende um cigarro e toma uma coca-cola daquelas da garrafa de vidro. O sol começa a aparecer por entre a tempestade. Ela surge com seus cabelos curtos e ruivos, o vestido rosa-claro molhado colado no corpo, os olhos verdes tentam disfarçar a vergonha do mamilo marcado. Ele sorri.
- Quer um cigarro?
- Não, obrigada. Estou tentando parar.
- Eu também. Ele tira a sola do pé encostada da parede e caminha até ela.
- Prazer, Gabriel. Café? Suco?
- Vou aceitar um cigarro, só até a chuva passar. Juliana.
Então ela puxa um cigarro do maço, coloca entre seus lábios e ele acende concentrado no primeiro trago. É como se nada mais importasse. Como se ele tivesse vivido toda sua vida para ver aquela garota colocar o cigarro no meio de sua boca carnuda e seca. E abrir e fechar os olhos depois do primeiro trago. Nada mais importa. Ela passa a língua nos lábios superiores de uma ponta a outra da boca, é fascinante. Ele sente vontade de puxá-la , de dar-te um beijo longo, mas falta-lhe coragem, afinal, os mamilos ainda estavam marcados no vestido molhado. Seria uma forma de traição ele procurar-lhe a boca pensando nos mamilos. E Gabriel nunca traíra, nem mesmo em nome do instinto. Nunca se propusera a trair a alma para favorecer o desejo do corpo. Era um moço sensível e honrado. Nas horas vagas, além de pedalar, pintava retratos. E nas horas que lhe restavam trabalhava numa agência dos correios.
- Será que essa chuva vai durar muito? Você mora aqui perto?
- ahnnnn, moro, moro sim... estava indo para casa tomar um banho antes de ir trabalhar, quando esse temporal começou e resolvi encostar aqui. E você? Mora por aqui?
A chuva começava a diminuir dando lugar ao sol. A atmosfera era agradável como sorvete de limão no verão e o cheiro das gotas aguçava os sentidos. Sua intuição dizia que o momento estava passando, era preciso agir rápido ou tudo se tornaria lembrança. Mas isso era iminente. Iminência esta que a paixão ou atração pelo sexo oposto sempre teimam em desconsiderar.
- Não, estou de passagem. Falte no trabalho hoje. Vamos ao parque! Podemos deitar na grama e ouvir música. Meu celular tem rádio. O brilho nos seus olhos aumentava a cada pequeno período entre uma frase e outra.
Ele estava sendo testado pelo destino. Quem era essa garota? Qual era o papel dela em sua vida? Aliás, existia algum papel ou tudo não passava de fruto de sua imaginação temperada pela visão dos cabelos molhados e dos mamilos endurecidos? Gabriel estava confuso. Não sabia o que falar. Faltava-lhe saliva. A bituca do cigarro quase lhe queimava o dedo no momento do devaneio.
- Olha...infelizmente não posso me dar ao luxo de ser demitido, preciso da grana do trabalho para fazer meu curso de pintura em Londres. Estou juntando a 3 anos, mais 1 ano e eu consigo.
- Uau! Isso é algo grande! Eu era garçonete de um café na rua de cima. Fui despedida hoje. Dei um tapa na cara de um cliente bêbado que me apertou a bunda. E deu um longo trago no cigarro como se a nicotina pudesse diminuir a humilhação que sentira. A cada trago que Juliana dava, Gabriel ficava mais e mais hipnotizado. Nada mais importava.
- E se fosse eu a te apertar a bunda?
- No meu ambiente de trabalho?
- Não, aqui. Agora.
Juliana arregalou os grandes olhos verdes e deu uma gargalhada.
- Ora rapaz, achei que você do tipo “moço-correto-que-trabalha-para-chegar-a-algum-na vida”.
- E sou, isso não me impede de querer apertar sua bunda.
Ele não sabia de onde surgira a coragem para falar dessa maneira com uma garota tão bonita e que mal conhecia, ele nunca havia falado assim com ninguém, nem com Rosana, sua ex namorada de 2 meses e meio. Mas assim como o momento, as frases tomavam conta de seu ser.
- Fazemos assim então: Vamos até o parque e lá eu decido se você irá ou não apertar minha bunda, feito?
Ela olhou para o lado e viu que não chovia mais. As pessoas começavam a entrar na padaria para almoçar o prato do dia. O vestido de Juliana já não estava mais tão molhado, apenas úmido. Os mamilos não se manifestavam mais. Era outro momento.
É agora. Preciso provar seus lábios. Nada mais importa.
E num ímpeto ele a tomou nos braços e lhe beijou a boca, o queixo, os olhos. Não sentiu vontade de apertar a bunda. Sentia vontade de acariciar o cabelo ruivo e era isso que fazia. Ela correspondia ao beijo, os mamilos voltaram a endurecer. Mas antes do beijo terminar, num movimento brusco, ela se afastou.
- Preciso ir, vou perder o ônibus. Minha irmã disse que vai fazer minhas unhas hoje. E começou a andar num passo rápido. O sol estava a pino.
- Que isso garota? E o parque? E a música? Ele estica o braço para alcançar o dela. Em vão. Juliana lhe dá um empurrão e continua a caminhar apressadamente.
- Não dá. Preciso ir. E acelera ainda mais o passo.
Atordoado ele a acompanha até a avenida.
- Me dá seu telefone então. Onde você mora?
- Não, não posso. Tenho namorado. Me desculpe, não sei porque fiz isso. Por favor me deixe ir. Juliana olha para ele com olhos de tristeza. O verde já não cintila mais. O sol parece esquentar 2 graus a cada segundo. O calor torna-se insuportável.
De longe ela avista seu ônibus e começa a correr. Ele corre junto. Ela sobe os degraus.
- Me procure então! Trabalho na agência dos correios da rua Pamplona!
Ela já desaparecera em meio a multidão de pernas e axilas suadas do Lapa 417 c.

3 comentários:

Unknown disse...

Hum, ta otimo o texto...vc eh escritora...bj

paulaprado disse...

gostei!!!
vc q escreveu??

bjinho querida!
Paula Prado (namorada -noiva- do Fabio Lessa, Australia, Manly, sabe assim?) ;o)

Janinne Veloso disse...

Oi Paulinha, sim, fui eu! brigada! bjsss