quinta-feira, 29 de julho de 2010

Trecho

"(...)Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas(...)."
Trecho do livro Memórias de MInhas Putas Tristes, de Gabriel García Márquez.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Frenemies

Sensação horrível esta de olhar para trás e ver pessoas que você sempre considerou queridas e amigas simplesmente te deletarem da vida delas. Peneira da amizade.
Um dia sem motivo algum seu "amigo" acorda e resolve que não é mais seu amigo. Resolve sem justificativa alguma que não vai te ajudar em nada, mesmo se puder, pelo simples fato de que resolveu que não é mais seu amigo.
O irônico disto tudo é a futilidade, o quão rasas as pessoas podem ser. Quando você está numa boa, cabelo brilhante, roupa da moda, viagem pra Europa, muitos amigos aparecem. Todo mundo quer saber de você, o que você faz, com quem você anda, marcar encontro, nossa! Mil e uma atividades. Aí vem uma fase que você fica por baixo... e é aí que os falsos amigos se revelam. Parece que eu tô especificamente mordida com alguém e na real eu tô mesmo! Só não postei a frase "Quanto mais eu conheço os homens, mais eu gosto dos meus cachorros" porque eu não tenho cachorros, ainda.
Vai ver eu sou muito ingênua e gosto demais de gente, GENTE-GENTE, que fala com pequenas atitudes, que vê beleza em detalhes e na simplicidade. Isso descreve gente, o resto são robôs condicionados a informação massiva e a propagandas de cosméticos. Enfim, voltando... gosto demais a ponto de acreditar na bondade natural do homem, às vezes é bom lembrar Hobbes e crer que "o Homem é o lobo do Homem", infelizmente o meio transforma o Homem e seus valores. Os robozinhos não têm culpa! Triste deles que não sabem ver beleza em um cachorro se espreguiçando ao sol.
De qualquer jeito não pretendo parar de ajudar as pessoas e a gostar delas, this is who I am. Sinto pena dessas pessoas mesquinhas que vivem de sugar o sucesso dos outros, que possuem uma inveja tão devastadora que chega a transbordar. Haja espiritualidade para afastar tanto mau olhado! Saravá!
Estou frequentando o centro espírita, na verdade fui uma vez só e me fez um bem enorme... senti que deixei duas toneladas lá e com certeza muita energia negativa que despejaram em mim ficou por lá.
O negócio é que as pessoas, muitas vezes, não invejam o próximo conscientemente... a inveja simplesmente brota, é um sentimento incontrolável. Quem nunca sentiu inveja que atire a primeira pedra em Sakineh.
Não tenho a mesma autoridade de Zuenir Ventura para falar sobre inveja, mas posso dizer que depois de ler o livro dele (cadê meu livro da Inveja - Mal Secreto???) concluí que não existe inveja boa. Talvez o mais próximo disto seja a admiração... mas aí não é inveja, é admiração.
É muito estranho ver a amizade virar desprezo. Ainda bem que não tenho muito conhecimento de causa, na real tenho muitos amigos que mesmo apesar da distância física eu sei que posso confiar e dar risada das coisas mais bobas possíveis.
Sou tão sortuda que tenho ainda o que eu chamo de "amigas porto-seguro", estas estão em outro patamar e me garantem amizade incondicional, verdadeira e próxima. Sem isso eu não seria eu, sem isto eu não saberia o verdadeiro significado de ter amigos, sem isto a peneira seria furada e muitos frenemies disfarçados de leite, consegueriam passar através sendo que na verdade são nata, nata de leite gordo ainda. Se tem uma coisa que eu acho nojenta é café com leite e nata! Argh!
Um salve a amizade!!!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

São Tomás Douradinho

Não precisam mais se preocupar com o que os outros pensam.
A rotina rupestre: plantar, arar, colher,
Faz com que pensem por si próprios.
Agora, e só agora, conseguem enxergar o grande segredo:
Simplicidade, empatia, amor.
Levarão apenas aquilo que irradiam.

Se antes vestiam relógios e rostos sisudos,
Agora contam o tempo pelo sol e seus olhos cintilam
ao bater de asas das andorinhas.
Pulmões já não sentem mais falta de fumaça,
O fogão a lenha libera aroma que aguça os sentidos.

Os montes, as flores e o rio estão ali.
Se para Caeiro isto é Deus,
Talvez para eles também seja.
Não pensam sobre isso,
Pensam sobre a colheita.

Á beira do riacho fazem amor,
sem consciência de que o que fazem é poesia.
Comunicam-se pelo olhar com facilidade,
E vez ou outra pelo pensamento.
A sintonia harmoniosa permite tal privilégio.

Se antes o programa de auditório da TV lhes dava gozo,
Agora apreciam e se encantam com o nascer do sol.
Sentam-se à mesa para todas as refeições,
Ela coloca flores no vaso todos os dias,
Ele leva leite fresco para a ambrosia.

Ele talhou a madeira
Ela pintou as letras
da placa da entrada que diz
"Fazenda São Tomás Douradinho"

Deram sentido a tudo que antes não tinha.
E cada vez que ela inclina a cabeça pro lado e joga os cabelos,
A alma dele sorri.
E cada vez que ele abre e fecha os olhos e coça o ombro esquerdo,
A alma dela sorri.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Doce de Coco

Doce de coco, tequila com limão, passeio na contra-mão.
Excesso de saliva é sintoma do muito querer, a vontade saciada
esvazia a mente por um longo minuto que parece nunca padecer.
O eterno é pra sempre, pra sempre é muito tempo.
Conceito relativo, enruga a pele e passa rápido ou lento.

Enquanto a borboleta bate as asas alguém morre no Haiti.
Doce de coco é bom e também Salvador Dali.
Relógios moles derretem minutos e horas, ninguém percebe a aurora.
A companhia de Baco faz os loucos se perderem entre o delírio e o real.
Alimentando-se tão somente de prazer, seria instinto animal?

sábado, 10 de julho de 2010

Don't fugere urbem!


Ontem almocei um suculento filé a parmegiana no Marajá. A primeira vez que comi lá foi há alguns anos com uma amiga que dizia maravilhas do tal parmegiana e complementava falando que o lugar parecia o restaurante da Dona Florinda. Essa segunda informação foi crucial pra me convencer a ir até o centro por um pedaço de carne.
Na época essa amiga era advogada e frequentava o bar/restaura nos dias da Pendura, - Pendura pra quem não sabe é o dia que os advogados e homens da lei decidem que vão comer de graça, "pendurar a conta", nos restaurantes da cidade. Era um hábito que vigorou até meados de 2000 -, não sei se ainda existe dia da Pendura. Vou perguntar pro marido da minha amiga, que ao contrário dela, ainda é advogado.
Hoje eu acho legal dar uma volta pelo centro, comer em algum lugar roots (desde que não seja feijoada ou churrasquinho grego). Não tenho mais tanto medo como eu tinha nessa época aí em que fui pela primeira vez ao Marajá. Antes eu ficava com a sensação de que a qualquer momento poderia surgir um louco cheirado de cola, enfiar uma arma na minha cabeça e me pedir pra passar tudo. Isso nunca aconteceu.
A metrópole desenvolve esse medo em seus habitantes, um pânico coletivo que faz a gente andar com vidro fechado, segurar a bolsa e ficar sempre atento a tudo que acontece ao nosso redor.
O engraçado é que nunca fui assaltada na cidade. Minto! Fui uma vez, mas foi uma tentativa frustada. Eram 07h00, estava indo pra faculdade a pé quando apareceu um carinha com a mão no casaco me pedindo pra passar o celular. Se eu não estivesse com tanto sono teria me assustado mais... passei o celular. O carinha olhou, olhou de novo, virou pra mim e falou:- Não tem câmera! Pode ficar com esse lixo! Anda, sai daqui e se chamar a polícia, você tá f%*!
Fui andando pra universidade com o coração acelerado, enquanto eu caminhava o sentimento de raiva ia aumentando gradativamente... além de ter me assustado o cara não quis meu celular porque não tinha câmera! Os assaltantes do século XXI não querem só a massa, querem um bolo de chocolate com recheio de doce de leite e uma cereja em cima! Bolo da Dior, claro!
A contradição é que assalto de verdade eu sofri na Barra do Sahy. Uma praia linda e tranquila no litoral norte de SP. Eram 11h00, estávamos eu e mais duas amigas indo a pé para praia. Ali na pontezinha do Sahy/Baleia chegou um cara, falou que era um assalto, mostrou a arma pendurada na bermuda, pediu o relógio da Mar, nosso dinheiro e falou: - Boas ondas!
Minha amiga estava com a prancha... "boas ondas", sem comentários.
Depois desse assalto na praia eu relaxei na cidade, aos poucos fui deixando o medo de lado para dar espaço aos encantos da urbe: graffiti, rap, gente de tudo quanto é jeito, rua só de vestidos de noiva, rua só de instrumentos musicais, rua só de eletrônicos... coisas e lugares que antes me davam medo agora exercem fascínio sobre mim. Será que vale a pena demolir o Minhocão?
Relaxei tanto nas cidades que esqueci de trancar a porta do hotel na minha primeira noite em Bangkok. Esqueci não, esquecemos. Eu a crazy da Car. Também pudera, estávamos tão cansadas que quando entramos no quarto simplesmente desmaiamos na cama.
Foi estranho, no meio do sonho eu comecei a ouvir a Car gritar : - What are you doing here, what are you doing here??? E aí me dei conta de que não era sonho, era realidade. Abri os olhos e vi um cara agachado olhando o quarto inteiro, comecei a gritar como se estivesse morrendo esfaqueada. Desespero. O cara saiu correndo.
Foi um dos maiores medos que eu senti num curto espaço de tempo. Primeiro veio o pensamento de "o que ele vai fazer com a gente?" depois de "pelo amor de Deus não leva meu passaporte!" e depois ele saiu correndo e... aiii que raiva!
Rodamos a baiana no hotel, que era em plena Khao San Road - rua famosa por ser ponto de encontro de mochileiros e muito similar a paulistana 25 de março -. O pessoal da recepção não ligou muito, parecia que era a quilhonésima vez que isso acontecia ali.
Mudaram a gente de quarto e só. Disseram que não tinham total controle sobre o entra e sai de hóspedes porque a galera que fica no hotel geralmente sai de noite e volta só de manhã, muitas vezes com companhia. Anrã! E as câmeras em todos os andares? Decidimos deixar pra lá, não tínhamos outra alternativa, o hotel era bom, as massagistas eram incríveis e só ficaríamos mais duas noites ali. O vacilo foi pegar quarto no primeiro andar e esquecer a porta aberta. Depois chegamos a conclusão de que o ladrãozinho foi testando porta por porta até encontrar a nossa aberta.
Fomos para o Float Market pra tentar esquecer o episódio e não ficar em pânico a viagem inteira, afinal, estávamos salvas, com nossa bagagem intocada e na Tailândia! As outras duas noites checamos a tranca umas 400 vezes e mesmo assim deu um medinho antes de dormir. Depois descemos para as ilhas e desencanamos totalmente de trancas, buracos e pokers.
Gosto muito dessa ideia de revitalizar o centro de São Paulo. Façam mesmo as baladas ali nos arredores da Sé, vamo aí comer no Marajá! Quem sabe assim a beleza escondida pelo crack consegue ressurgir.