quarta-feira, 21 de setembro de 2011

professora de português


- oi
- oi
- tudo bem?
- tudo bem e você?
- sim, tô com um pouco de fome, mas fora isso...
- hum, eu também...
- sabe eu sempre te vejo aqui aí resolvi falar, porque a gente sempre fica aqui junto... esperando o ônibus...
- sim, sim. Eu também já tinha pensado em falar com você, mas não sabia direito o que falar... não sou muito boa em conversa de elevador, sabe? Nesse caso conversa de ponto de ônibus.
- sei, sei como é... eu não tenho problema com isso, falo pelos cotovelos.
- engraçado, geralmente as mulheres falam pelos cotovelos.
- bom, não preciso afirmar minha masculinidade...
- é, acho que não.
- você parou de fumar?
- oi? ué... ahhh, você me observa mesmo hein?
- todo mundo te observa, não?
- não.
- você não percebe isso?
- então, estou tentando parar com o cigarro.
- é, os vícios...
- pois é... e você tem algum vício?
- hum... só um
- qual é?
- nenhum preocupante.
- falar que vício é ruim é pleonasmo.
- pode ser. Você é professora de português?
- não, você é?
- não. é que não é muito comum as pessoas falarem pleonasmo.
- isso depende do que é comum pra você.
- e se a gente fosse caminhando até o próximo ponto?
- e se eu tivesse uma roda? seria um carro?
- se você tivesse pneu seria gordinha.
- desculpe. é que não vejo muito futuro nisso.
- no que exatamente? em andar 5 ou 6 quarteirões? pode te ajudar a prevenir os pneus...
- às vezes é melhor não sair da zona de conforto.
- sou obrigado a discordar. é necessario sair da zona de conforto, sempre.
- não, você não é obrigado a nada. o livre arbítrio está presente mesmo nas pequenas decisões.
- com certeza, hoje no almoço por exemplo, eu estava na dúvida se devia comer salada ou hamburguer e acabei optando por peixe.
- sei. acho que você não entendeu.
- acho que você está me subestimando. é sério, não precisa desse sorriso de canto. Já sei que a ironia é uma de suas qualidades, mas ela também pode ser interpretada como prepotencia.
- de forma alguma. estou achando a conversa agradável.
- e como voce segura essa vontade de perguntar sobre a minha vida pessoal?
- você não me respondeu sobre seu vício, então boa parte da minha atenção se voltou para aquele barbeiro ali na frente. ele deve estar lá, com essa mesma loja desde 1950.
- olha lá seu ônibus chegando.
- é mesmo, que bom! obrigada pela atenção, pelo papo... qual seu nome?
- Edson
- Luana, tchau!
- Tchau Luana, prazer. Sapos.
- oi?
- meu vício. Sapos, coleciono sapos.
- ah, tá. hum, mas isso é uma coleção, não?
- com um 'q' de vício.
- vou nessa! tchau! Assiste Magnolia!
- Tchau

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