Ela chegou em casa, tomou um banho longo e colocou a camisola. Depois pensou que algum dia ela teria que fazer alguma coisa, não dava pra viver aquela situação pra sempre. E aí sonhou com ele. Toda vez que eles se encontram ela sonha com ele. Ele mexe com ela, mas ela nao mexe com ele. É, na verdade ele nao acha ela muito interessante, acha ela bonita, mas nada demais... não é o tipo de mulher pela qual ele se sente atraído. Ele acha ela exagerada e até um pouco fútil. A coitada perde a respiração quando o vê, pensa nele como o desejo não realizado que ela gostaria muito de realizar e isso faz mais tempo do que ela gosta de lembrar. Ele nunca deu bola pra ela. Mentira, deu sim... na verdade ele até já chamou ela pra dançar tango, mas isso nunca aconteceu. A maioria das amigas dela nao acham ele bonito e nem simpático, e ela nao entende como elas não notam e nao se contagiam com o charme que ele carrega no olhar, nos movimentos e até no tom superior da voz e na escolha de palavras.
Na época em que se conheceram ela era comprometida e se sentiu naturalmente atraída por ele, foi inevitável. O fato dela ser comprometida o instigou e fez com que ele separasse uma cadeira pra ela do lado dele quando jogaram poker, fez também com que ele colocasse a mão em cima da dela quando ela pegou o copo. Um dia ela se separou do namorado e aí teve certeza que eles iriam se aproximar, se conhecer melhor. Maior do que a vontade de conversar, de saber mais sobre ele que sempre pareceu um pessoa interessante, ela sempre quis beijá-lo, ela sempre quis que que ele tocasse o pescoço dela com a boca e depois apertasse a cintura dela contra a dele... mas, para a frustração dela, nada aconteceu.
Depois que ela ficou solteira, ele perdeu o interesse e na maioria das vezes que se encontraram ela já tinha tomado mais de duas doses e falava e ria alto. Ele não gostou, criou a ideia que ela era escandalosa, metida e passou a quase ignorá-la. Tiveram ainda uma experiência de trabalho juntos que foi um completo fiasco. Ela nunca vai esquecer o dia que ele paquerou a professora na frente dela... mas também, os dias que trabalharam juntos a atraçao dela por ele diminuiu quase por completo, tamanho era o perfeccionismo e o jeitão metódico dele. Depois que passou o trabalho, eles se encontraram de novo e, como nos velhos tempos, foi só ela bater o olho nele que a respiração ficou ofegante e ela pensou que era uma droga não estar curada. Ele olhou e pensou que era bem melhor encontrá-la em festas mesmo com ela bebendo muito e falando alto do que no ambiente de trabalho. Ela quebrou um copo, ele riu e disse que nao tinha problema. Ela teve a infeliz ideia de abordar ele por mensagens no celular e estava indo bem, até terminar com uma frase bem piegas falando de biombo. Fiasco número mil.
Hoje? Ah, tudo continua mais ou menos igual, os encontros são quase formais: falam oi e conversam sobre alguma amenidade. Ele nunca comentou a mensagem brega porque não viu sentido nisso e a respiração dela continua falhando quando ela enxerga ele de longe, mas ela ja aprendeu a controlar.
Ela já sabe que sempre vai ser assim quando encontrá-lo: falha na respiração, conversa amena, uma volta pra casa falando que ele é muito gato pra amiga que vai discordar e depois um sonho que vai parecer real até ela acordar morrendo de sede no meio da noite. No outro dia ela vai pensar nele de novo e depois a vida vai seguir e ela vai deixar pra lá, até o próximo encontro.
Ela deseja ele quase como um homem deseja uma mulher. A diferença é que o intelecto e o pouco que ela conhece da personalidade dele, fazem parte do pacote do desejo. É o desejo genuíno de mente e corpo. E isso, até que se realize vai continuar assim.
Ela odeia essa situação, odeia encontrá-lo e sentir vontade de beijá-lo e se incomoda quando ve ele vez ou outra com uma moça a tiracolo. Ela já pensou em falar com ele, jogar limpo e na cara que ela morre de vontade de dar um beijo nele, um que fosse... mas ela não vê sentido nisso porque ela sabe que ele sabe das intenções dela. Então, pra que se expor? Eu não sei nem o que falar pra ela... mas penso que talvez seja só uma atração que ela deveria superar, vai ver é um teste de superação. Como o alcoolatra que para de beber e da de cara com um boteco na esquina cheio de amigos bebendo cachaça. É, talvez ela só tenha q superar isso... talvez essa atração alimentada pelo desdém dele seja só uma ilusão criada pela cabeça dela com o objetivo de estabelecer seus próprios limites.
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