sábado, 10 de julho de 2010

Don't fugere urbem!


Ontem almocei um suculento filé a parmegiana no Marajá. A primeira vez que comi lá foi há alguns anos com uma amiga que dizia maravilhas do tal parmegiana e complementava falando que o lugar parecia o restaurante da Dona Florinda. Essa segunda informação foi crucial pra me convencer a ir até o centro por um pedaço de carne.
Na época essa amiga era advogada e frequentava o bar/restaura nos dias da Pendura, - Pendura pra quem não sabe é o dia que os advogados e homens da lei decidem que vão comer de graça, "pendurar a conta", nos restaurantes da cidade. Era um hábito que vigorou até meados de 2000 -, não sei se ainda existe dia da Pendura. Vou perguntar pro marido da minha amiga, que ao contrário dela, ainda é advogado.
Hoje eu acho legal dar uma volta pelo centro, comer em algum lugar roots (desde que não seja feijoada ou churrasquinho grego). Não tenho mais tanto medo como eu tinha nessa época aí em que fui pela primeira vez ao Marajá. Antes eu ficava com a sensação de que a qualquer momento poderia surgir um louco cheirado de cola, enfiar uma arma na minha cabeça e me pedir pra passar tudo. Isso nunca aconteceu.
A metrópole desenvolve esse medo em seus habitantes, um pânico coletivo que faz a gente andar com vidro fechado, segurar a bolsa e ficar sempre atento a tudo que acontece ao nosso redor.
O engraçado é que nunca fui assaltada na cidade. Minto! Fui uma vez, mas foi uma tentativa frustada. Eram 07h00, estava indo pra faculdade a pé quando apareceu um carinha com a mão no casaco me pedindo pra passar o celular. Se eu não estivesse com tanto sono teria me assustado mais... passei o celular. O carinha olhou, olhou de novo, virou pra mim e falou:- Não tem câmera! Pode ficar com esse lixo! Anda, sai daqui e se chamar a polícia, você tá f%*!
Fui andando pra universidade com o coração acelerado, enquanto eu caminhava o sentimento de raiva ia aumentando gradativamente... além de ter me assustado o cara não quis meu celular porque não tinha câmera! Os assaltantes do século XXI não querem só a massa, querem um bolo de chocolate com recheio de doce de leite e uma cereja em cima! Bolo da Dior, claro!
A contradição é que assalto de verdade eu sofri na Barra do Sahy. Uma praia linda e tranquila no litoral norte de SP. Eram 11h00, estávamos eu e mais duas amigas indo a pé para praia. Ali na pontezinha do Sahy/Baleia chegou um cara, falou que era um assalto, mostrou a arma pendurada na bermuda, pediu o relógio da Mar, nosso dinheiro e falou: - Boas ondas!
Minha amiga estava com a prancha... "boas ondas", sem comentários.
Depois desse assalto na praia eu relaxei na cidade, aos poucos fui deixando o medo de lado para dar espaço aos encantos da urbe: graffiti, rap, gente de tudo quanto é jeito, rua só de vestidos de noiva, rua só de instrumentos musicais, rua só de eletrônicos... coisas e lugares que antes me davam medo agora exercem fascínio sobre mim. Será que vale a pena demolir o Minhocão?
Relaxei tanto nas cidades que esqueci de trancar a porta do hotel na minha primeira noite em Bangkok. Esqueci não, esquecemos. Eu a crazy da Car. Também pudera, estávamos tão cansadas que quando entramos no quarto simplesmente desmaiamos na cama.
Foi estranho, no meio do sonho eu comecei a ouvir a Car gritar : - What are you doing here, what are you doing here??? E aí me dei conta de que não era sonho, era realidade. Abri os olhos e vi um cara agachado olhando o quarto inteiro, comecei a gritar como se estivesse morrendo esfaqueada. Desespero. O cara saiu correndo.
Foi um dos maiores medos que eu senti num curto espaço de tempo. Primeiro veio o pensamento de "o que ele vai fazer com a gente?" depois de "pelo amor de Deus não leva meu passaporte!" e depois ele saiu correndo e... aiii que raiva!
Rodamos a baiana no hotel, que era em plena Khao San Road - rua famosa por ser ponto de encontro de mochileiros e muito similar a paulistana 25 de março -. O pessoal da recepção não ligou muito, parecia que era a quilhonésima vez que isso acontecia ali.
Mudaram a gente de quarto e só. Disseram que não tinham total controle sobre o entra e sai de hóspedes porque a galera que fica no hotel geralmente sai de noite e volta só de manhã, muitas vezes com companhia. Anrã! E as câmeras em todos os andares? Decidimos deixar pra lá, não tínhamos outra alternativa, o hotel era bom, as massagistas eram incríveis e só ficaríamos mais duas noites ali. O vacilo foi pegar quarto no primeiro andar e esquecer a porta aberta. Depois chegamos a conclusão de que o ladrãozinho foi testando porta por porta até encontrar a nossa aberta.
Fomos para o Float Market pra tentar esquecer o episódio e não ficar em pânico a viagem inteira, afinal, estávamos salvas, com nossa bagagem intocada e na Tailândia! As outras duas noites checamos a tranca umas 400 vezes e mesmo assim deu um medinho antes de dormir. Depois descemos para as ilhas e desencanamos totalmente de trancas, buracos e pokers.
Gosto muito dessa ideia de revitalizar o centro de São Paulo. Façam mesmo as baladas ali nos arredores da Sé, vamo aí comer no Marajá! Quem sabe assim a beleza escondida pelo crack consegue ressurgir.

Um comentário:

Bianca Pulice disse...

Suculento mesmo esse filé!
Só a Bruna mesmo pra recomendar esses lugares!
Concordo com mtos pontos do que vc falou de tudo que tem em SP, da estrutura que temos, das opções... mas se SP tivesse talvez uns 10 milhoes de habitantes a menos, talvez eu nao pensaria tanto no Fugere Urbem.
Pq eu realmente prezo mto a qualidade de vida e gostaria mesmo de poder viver alegre e contente num ambiente menos conturbado!