terça-feira, 7 de junho de 2011

isto não é uma ode à solteirice


O Amor me incomoda, incomda muito mais do que a paixão. A paixão é intensa, arrebatadora, tira a fome, acelera o coração e faz as pernas tremerem. Veste tão bem em mim quanto o meu vestido amarelo. E isso quer dizer, muuuuito bem!
Quer coisa mais tediosa do que o amor? O amor é a rotina de olhar pra mesma cara todo dia e às vezes até adivinhar o pensamento do outro. Sabe, vai ver os videntes treinam suas habilidades com o ser amado. E não existe um estado para aqueles que estão amando. Quando a pessoa sofre de paixão ela está apaixonada. E quando ela sofre de amor? Entediada? Engraçado que a palavra amante, derivada de amor, serve para aqueles que tem casos extraconjugais... e no advogadês do cotidiano o marido não é o amante, é o cônjuge. Cônjuge... nao tinha uma palavra mais bonitinha não?
Acho que o amor é o nome que deram pra quando a paixão esfria e vira amizade, companheirismo e cumplicidade. E também fidelidade em alguns casos. É um tanto complicado esse conceito de até que a morte, A MORTE, os separe. E monogamia pro resto da vida. Viva a hipocrisia ocidental!
Sintam-se livres para pensar que eu sou uma solteira revoltada falando que o amor incomoda porque não tem alguém pra amar, porque está com quase trinta anos e não casou ainda. Porque é mal comida... haha. A imaginação é um dom e cada um usa a sua do jeito que bem entender... não vou entrar em detalhes factuais e muito menos contar minhas experiências amorosas ou apaixonísticas.
Bom, mas a verdade é que eu nao entendo o amor mesmo e sempre gostei de experimentar. E quando penso em passar o resto da vida ao lado de alguém sem estar apaixonada fico na dúvida se é o certo a fazer. Tenho plena consciência de que no fim, no fim da vida, deve ser muito ruim ficar sozinha, não ter com quem compartilhar as coisas boas e ruins... e aí penso que realmente a amizade, o companheirismo, parceria, são de longe muito mais importantes do que a paixão avassaladora que tem a mesma duração de uma chama.
É por isso que o hit do Camões sobre amor, que ele fala no fogo que arde sem se ver, contentamento descontente, servir a quem vence, o vencedor é na verdade um poema sobre a paixão, no entanto, a paixão sempre ficou atrás do amor. O amor é o sentimento nobre, de onde todas as virtudes se originam e a gente pensa: Ah, vai... existe esperança, o ser humano é capaz de amar... já a paixão está intimamente ligada a luxúria, desejo, pecado. O amor é catalogado: uma coisa é o amor que sentimos pela família, outra é o amor pelos amigos, outra o amor pela vida, e assim vai... não é justo falar que amor de homem e mulher é igual amor de... sei lá... do amor que você tem pelo seu cachorro. Não é o mesmo sentimento... é? Existem diferentes categorias de amor e pra mim, essa coisa que vira depois que a paixão acaba é amizade mesmo, o que não deixa de ser uma forma de amor. Mas aí vai todo mundo lá e fala que ama alguém, que ama o namorado... como se o amor que a pessoa está sentindo naquele momento fosse o mesmo amor que ela sente quando vê o nascer do sol. Ou pior... como se esse sentimento entre homem e mulher não fosse uma coisa mutante. Uma coisa é o 'eu te amo' depois de um mês de namoro, outra coisa é o 'eu te amo' depois de 10 anos de casados, entretanto, a frase é a mesma. Me parece meio... fácil demais. Falei tudo isso pra dizer que eu acredito que existam diferentes formas de amor e que o a paixão vira é uma coisa que ninguém deu nome! É muito mais fácil roubar o significado de um sentimento nobre e implantá-lo numa relação morna de carinho e amizade. E não tem um culpado nessa história, os culpados somos nós que esperamos um amor que na verdade não existe... o que vivemos depois que a paixão se transforma "nisso" nunca é o amor que esperamos, dificilmente supera as expectativas. Não existe conto de fadas na vida real. Vide a Kate que esperou 8 anos pra se casar com o William, 8 anos... tá de brincadeira! E já dizia Pondé que o cotidiano mata o amor.
Só pra ilustrar com um caso típico de intertextualidade que queria ter falado aí em cima mas não rolou: é do vencedor do poema de Camões que o Djavan canta no "caí nos pés do vencedor para ser o serviçal de um samuraaaai". Tá, legal.
Então, mas é isso... o amor é boring. Acho triste a morte da paixão. Eu quero ser uma eterna apaixonada...e talvez esse querer me custe caro, posso terminar virando a eterna solitária, é possível que eu acabe me contradizendo por causa do medo da solidão.
Podia ser ao contrário... a gente ama a pessoa e depois se apaixona por ela e vive pro resto da vida atraído, com tesão e mistura isso a amizade e a cumplicidade. Não seria perfeito? Sim! É possível! Acabei de puxar um caso desses do fundo da minha mente louca: Florentino Ariza e Fermina Daza! Lindos, eles se amaram antes pra só concretizar a paixão 50 anos depois... e o Florentino foi paciente, já a Fermina sempre teimou em esquecê-lo, tinha um gênio do cão...devia ser ariana. Ah, O livro é Amor nos Tempos do Coléra. Espero de coração que quem ler esse post pelo menos saiba que esse livro existe.
Então é isso. Só queria registar meu ceticismo em relação a esta coisa que acontece depois que a paixão acaba. Meus amigos e amigas casadas que me desculpem. Vai ver essa coisa de "amor", como foi convencionado chamar, não é pra todo mundo. E eu não tenho nem um pouquinho de dó de mim. Aliás, coitado é aquele que não consegue realizar o coito!

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